
O antigo presidente de Cuba, Raúl Castro, foi acusado formalmente pelos Estados Unidos, esta quarta-feira, devido ao papel que terá desempenhado no abate de dois aviões civis, há 30 anos. Mas que ataque foi este, que desencadeou uma das maiores crises entre os EUA e Cuba e cujos efeitos perduram até hoje?
Três aeronaves Cessna da organização “Brothers to the Rescue” (ou “Hermanos al Rescate”) descolaram do estado norte-americano da Florida a 24 de fevereiro de 1996 para uma missão de rotina sobre o Estreito da Florida.
Num espaço de seis minutos após estarem no ar, dois deles foram abatidos por caças cubanos.
Todas as quatro pessoas morreram – Armando Alejandre Jr, de 44 anos, Carlos Alberto Costa, de 29, Pablo Morales, de 29 e Mario Manuel de la Peña, de 24. Tinham todos nacionalidade norte-americana, à exceção de Pablo, que era cubano.
O terceiro avião, pilotado por José Basulto, acabou por conseguir escapar. “Olhei para a direita e vi fumo ao longe, vindo de um dos aviões abatido”, recordou, citado pela BBC. “Olhei imediatamente para a Sylvia Iriondo (uma das voluntárias que seguia consigo) e disse-lhe: ‘Nós somos os próximos'”, acrescentou.
José crê que o seu avião era o principal alvo porque “era o líder do grupo” e mantém, como na altura, que os aviões estavam “em águas internacionais, ao norte de Havana” quando o ataque aconteceu.
A Organização de Aviação Civil Internacional (ICAO, na sigla em inglês) e a Organização dos Estados Americanos (OEA), sediada nos Estados Unidos, corroboraram essa versão e acusaram Cuba de violar o direito internacional. No entanto, o governo cubano manteve sempre a posição de que os aviões tinham sido abatidos em espaço aéreo de Cuba.
Mas porque é que os aviões foram abatidos?
O historiador Juan Antonio Blanco, que era diplomata em Havana quando o incidente ocorreu, descreveu-o como “uma emboscada orquestrada por Fidel Castro”. “Fidel Castro sabia de antemão quem iria voar naquele dia, que aviões iam usar e a rota que iam seguir”, explicou, acrescentando que os serviços de inteligência de Castro tinham um espião no grupo Brothers to the Rescue.
Segundo Blanco, Fidel Castro foi o responsável político pela operação, e Raúl Castro, então ministro das Forças Armadas, foi o executor.
Pelo lado de Cuba, as razões para o incidente aéreo ainda hoje são alvo de debate. A explicação oficial é de o Brothers to the Rescue era uma ameaça para a segurança nacional devido às suas incursões aéreas constantes. Mas outras interpretações apontam para motivações políticas, nomeadamente a hipótese de Fidel querer impedir uma possível reaproximação com os Estados Unidos.
O historiador argumenta que Fidel temia que qualquer reaproximação com o governo norte-americano pudesse estimular reformas políticas e económicas na ilha, o que colocaria em risco o seu poder absoluto.
Brothers to the Rescue ou Hermanos al Rescate – que grupo era este?
O ataque ocorreu durante uma profunda crise económica que atingiu Cuba durante a década de 90, após o colapso da União Soviética. Apagões, escassez de alimentos, faltas de combustível, e não só, levaram milhares de cubanos a tentar deixar a ilha para se juntarem a familiares nos Estados Unidos.
A organização Brothers to the Rescue surgiu passado pouco tempo em Miami, na Florida, fundada por exilados cubanos e liderada por José Basulto.
Inicialmente o grupo começou a fazer voos sobre o Estreito da Florida, em busca de barcos improvisados que transportassem migrantes cubanos. Mas com o tempo começaram a ir mais longe e a entrar no espaço aéreo cubano para lançar panfletos sobre Havana.
Cuba começou a denunciar as incursões e classificou o grupo e os seus membros como terroristas e uma ameaça à segurança nacional.
No entanto, José Basulto defende: “Para eles era terrorismo porque os panfletos que distribuíamos continham a Declaração Universal dos Direitos Humanos e isso era proibido em Cuba.”
O que é certo é que o ataque aéreo desencadeou a maior crise entre Cuba e os Estados Unidos desde a Guerra Fria e moldou o rumo das relações entre os dois países no século XXI, tendo repercussões até aos dias de hoje.
Cerca de 30 anos depois, o caso mantém um enorme peso simbólico e político em Cuba e entre a comunidade de exilados cubanos.
Os Estados Unidos acusaram formalmente o antigo presidente de Cuba Raúl Castro pelo alegado papel que desempenhou no abate de dois aviões civis, há 30 anos, que vitimou três cidadãos norte-americanos. Os aviões pertenciam à organização de voluntários “Brothers to the Rescue”, sediada em Miami, e foram abatidos em 1996.
Notícias ao Minuto | 17:12 – 20/05/2026



