
Em entrevista à agência Lusa, James Martin disse que “blasfémia” foi mesmo a palavra mais utilizada por cristãos conservadores ao verem a polémica imagem partilhada pelo chefe de Estado norte-americano. Contudo, considerou que “idolatria” é a palavra mais precisa para descrever toda a situação.
“O primeiro mandamento diz: ‘Não terás outros deuses além de mim’. E isso inclui Donald Trump. Partilhar uma imagem de si mesmo como Jesus não é apenas vaidade – e insanidade -, mas também claramente idolatria. Não consigo imaginar nenhum cristão que não se sinta ofendido de alguma forma”, afirmou.
Nas últimas semanas, Trump tem testado a lealdade da sua base cristã de apoiantes com uma série de provocações incomuns para um chefe de Estado.
Na noite de domingo, Donald Trump atacou o Papa Leão XIV chamando-o de “fraco no combate ao crime e péssimo em política externa”, após o primeiro Papa nascido nos Estados Unidos ter condenado as ameaças do Presidente contra o povo do Irão.
Logo em seguida, o chefe de Estado norte-americano publicou uma imagem gerada por inteligência artificial, na qual se apresentava como um suposto Jesus Cristo a curar um homem acamado e com luz a emanar das mãos.
Uma onda de críticas foi rapidamente lançada contra o Presidente, que, diante da crescente reação negativa, inclusive dos seus próprios aliados, apagou a polémica imagem e alegou que acreditava estar a ser retratado como médico, e não como Cristo.
Analisando os ataques de Trump ao Papa, o padre James Martin observou que há um historial de anticatolicismo nos Estados Unidos e uma das suspeitas mais antigas é que essas reações surgem contra o alegado “poder estrangeiro” de Roma, num receio que se intrometa na política norte-americana.
Tendo isso em conta, o sacerdote jesuíta, que é também editor-chefe da revista católica “America” e autor de vários livros, não prevê violência física contra o Papa devido à retórica do chefe de Estado.
Contudo, consegue ver a possibilidade de alguns dos apoiantes de Donald Trump sentirem que têm agora “permissão não só para criticar o Papa, mas também para descartar o que ele diz como irrelevante”.
Martin garante que há “muito carinho” nos Estados Unidos pelo Papa Leão XIV e diz que todos os católicos com quem conversou — progressistas ou mais conservadores — “ficaram horrorizados com os ataques pouco caridosos do Presidente”.
O Papa Leão XIV afirmou recentemente que Deus ignora as orações dos líderes que fazem guerra e têm “as mãos cheias de sangue”.
Essa declaração foi vista como uma crítica à administração de Donald Trump, uma vez que o secretário da Defesa, Pete Hegseth, apelou ao povo norte-americano para rezar “todos os dias, de joelhos” por uma vitória militar no Médio Oriente “em nome de Jesus Cristo”.
Questionado pela Lusa sobre se está preocupado com o uso da religião e com as referências a Jesus e a Deus para fins políticos e militares por parte do atual Governo, o padre James Martin considerou que as “orações do secretário Hegseth parecem implicar não só que Deus está ‘do lado americano’, mas também que Deus está contra o ‘outro lado’.
“Eu concordo a 100% com o Papa. Deus é um Deus de paz. No seu ministério público, Jesus disse: ‘Bem-aventurados os pacificadores’, e não ‘Bem-aventurados os belicistas'”. E, após a Ressurreição, disse aos seus seguidores assustados: ‘A paz esteja convosco’, e não ‘A vingança é minha’. Não é preciso ser um estudioso da Bíblia para entender estas coisas”, concluiu.
Esta não é a primeira vez que Trump irrita os católicos com imagens geradas por inteligência artificial.
No ano passado, na sequência da morte do Papa Francisco, Trump partilhou uma imagem gerada por inteligência artificial em que simulava ser ele próprio o Sumo Pontífice
Desta vez, porém, com os seus índices de aprovação em baixa e os republicanos preocupados com as eleições intercalares de novembro, as consequências políticas podem agora ser muito maiores.




