
A espanhola Noelia Castillo decidiu morrer e esta quinta-feira verá cumprido o seu desejo, após dois anos de uma batalha que envolveu médicos e juízes e cujo principal opositor da decisão era o seu pai.
O protocolo da eutanásia refere que o procedimento terá a duração de 15 minutos e colocará fim a uma batalha que se iniciou depois de, em 2022, Noelia Castillo ter tentado acabar com a própria vida ao atirar-se do 5.º andar de um prédio. Sobreviveu à queda, mas ficou com lesões na coluna que a deixaram paraplégica.
Depois deste incidente, Noelia pediu para ser eutanasiada, mas os pais e irmãs sempre foram contra. O procedimento acabou por ser autorizado em julho do ano passado, mas o pai tentou apelar a outras instâncias para impedir a morte assistida da filha.
Esta quarta-feira, soube-se que o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos (TEDH), com sede em Estrasburgo, rejeitou o último recurso colocado em nome do pai da jovem com a ajuda da organização ultraconservadora Advogados Cristãos.
Qual é a história de Noelia, que a leva a querer morrer?
Desde muito cedo, a falta de afeto e os constantes conflitos no lar condicionaram o destino de Noelia, que acabaria por viver sob a tutela da Generalitat da Catalunha desde os 13 anos. A sua infância e adolescência decorreram entre ordens religiosas e centros de menores, locais onde a ausência dos pais deixou uma marca indelével.
No entanto, o ponto de viragem definitivo ocorreu em 2022. Num dos locais onde residia, a jovem sofreu uma agressão sexual por parte de um grupo que pertencia ao mesmo sistema que deveria protegê-la. O trauma psicológico revelou-se insuportável e, numa tentativa desesperada de silenciar a dor, a jovem decidiu atirar-se de um quinto andar.
Noelia sobreviveu, mas ficou com danos físicos para o resto da vida. A decisão que tomou tem em conta esta sequela, mas acima de tudo os danos psicológicos com que vive desde a agressão.
Uma paraplegia total da cintura para baixo e dores físicas crónicas que lhe roubaram o descanso e qualquer vestígio de qualidade de vida, levaram-na a recorrer ao Estado do seu país: queria morrer.
O processo e os entraves
Em 2024, Noelia deu início ao processo formal para solicitar a eutanásia, argumentando que a sua situação era “grave, crónica e incapacitante”. Para ela, a dor não era apenas física, era um eco constante do que tinha vivido. No entanto, o seu caminho deparou-se com um obstáculo inesperado: o seu próprio pai.
Foi o pai desta jovem que procurou a ajuda da organização ultraconservadora cristã e, entre julgamentos, recursos e sentenças, passou-se um ano e oito meses até ao fim desta luta.
Segundo o que a comissão que supervisiona a aplicação da lei já tinha dito no ano passado, a jovem apresentava uma situação clínica “irrecuperável”, tendo também dor e sofrimento “debilitantes.”
Noelia tem também um nível de dependência elevado e, numa entrevista à Antena 3, que foi emitida na quarta-feira, a jovem dá conta de que nunca teve dúvidas acerca da sua decisão: “Tinha esta ideia muito clara desde o início.”
Protocolo de eutanásia para Noelia Castillo
O protocolo médico que será seguido no hospital Sant Camil, em Barcelona, terá duração de 15 minutos e envolverá a administração de três medicamentos diferentes para ajudar a jovem Noelia Castillo a morrer com dignidade, conforme é a sua vontade.
Embora tenha permissão para ter companhia durante esse processo, a jovem catalã solicitou expressamente que os seus pais não estivessem presentes, dado que tem sido difícil para eles aceitar a sua decisão.




