O Portal da Transparência da administração pública de Ji-Paraná trouxe à tona, nesta semana, um gasto que promete reacender o debate sobre a ética no uso do dinheiro dos contribuintes. O Diretor-Presidente da Agência Municipal de Regulação de Ji-Paraná (AGERJI), Fábio Gonçalves, solicitou e obteve a concessão de diárias internacionais para uma viagem a Portugal, totalizando o expressivo valor de R$ 41.445,12. A viagem, prevista para ocorrer entre os dias 28 de janeiro e 11 de fevereiro de 2026, tem como justificativa a participação no XIX Benchmarking Internacional em Resíduos Sólidos. No entanto, o montante e o destino levantaram uma onda de questionamentos sobre a real necessidade de tal investimento para o município.
O caso ganha contornos de ironia e profunda contradição política quando se observa o histórico de Fábio Gonçalves. Antes de assumir a presidência da agência, Gonçalves era conhecido na cidade como um dos críticos mais ferozes e contundentes do uso de diárias pelo poder público. Em diversas ocasiões, ele classificou esses gastos como excessivos, desnecessários e um desrespeito ao bolso do cidadão. Agora, ocupando a cadeira da gestão, o atual diretor parece ter deixado a austeridade de lado, utilizando justamente os mecanismos que antes combatia para financiar uma viagem ao continente europeu, sem demonstrar o constrangimento que outrora exigia de seus adversários políticos.
Os valores detalhados no pedido impressionam pela magnitude em um período de desafios econômicos para a cidade. Para o deslocamento de Brasília a Portugal, o custo registrado é de R$ 35.045,12, somado a outros R$ 6.400,00 apenas para o trecho inicial até a capital federal. Mas o gasto não para por aí: o controlador da AGERJI, Carlos Fernando Dias, também foi contemplado com o mesmo benefício, elevando o custo total para os cofres públicos a R$ 82.890,24 apenas no mês de janeiro. O montante total gasto com a dupla seria suficiente para suprir diversas carências em áreas prioritárias do município, o que alimenta o sentimento de indignação popular.
Embora o pedido de diárias esteja amparado pela legislação e, tecnicamente, não configure uma ilegalidade, a situação esbarra em um dilema moral e ético que atinge diretamente a confiança da população. O “descaso” apontado por críticos e cidadãos nas redes sociais não é apenas pelo valor, mas pelo simbolismo de se gastar uma pequena fortuna para “buscar referências” na Europa enquanto o discurso de economia fica apenas no papel. A participação em eventos internacionais é um direito administrativo, mas a coerência entre o que se prega e o que se pratica é o que define a integridade de um gestor público perante aqueles que pagam a conta.






