
O ex-ministro das Infraestruturas João Galamba comentou, esta quinta-feira, a situação que Portugal enfrenta há quase duas semanas, desvendando que, “apesar de ninguém estar preparado para situações destas” e de esta ser uma “destruição sem precedentes” em território nacional, o país “não acordou hoje” para o que se passa. O antigo governante disse também que Portugal não pode ser acusado de “improviso” no setor elétrico.
Em entrevista à SIC Notícias, Galamba, referiu que o que se passa não se assemelha ao que aconteceu, por exemplo, durante o apagão, que foi uma espécie de “desmaio.”
Confrontando sobre ainda haver milhares de pessoas sem eletricidade e se aos dias de hoje a solução não poderia passar por geradores implementados ou a rede Starlink, para comunicações, respondeu: “Estive quase cinco anos como secretário de Estado da Energia e trabalhei muito com a E-redes e a REN – e as outras empresas -, que tenho a certeza de que estão a fazer o possível para recuperar o mais rapidamente que se consiga.”
Sublinhando que “nestas coisas, muito dificilmente” se conseguem traçar planos no âmbito de eventos desta natureza e dimensão, afirmou que “o país foi investindo naquilo que entendeu com a informação disponível.”
“Mas atenção que o país não acordou para isto hoje. Já nos planos de investimento – quer da REN, quer da E-Redes – a necessidade de aumento da resiliência da rede elétrica e a resistência a fenómenos extremos que serão cada vez mais frequentes, já está prevista”, disse.
Voltando aos tempos em que era ministro, explicou a existência do PDIRD-E, plano de investimento da rede de distribuição, a cargo da E-Redes: “São planos a vários anos, são revistos de dois em dois anos. Antes de sair, a E-Redes já tinha planeado alguns investimentos tendo em conta exatamente a situação que hoje vivemos. Mas aquilo que vivemos nas últimas duas semanas poucos seriam capazes de prever”.
Já questionado sobre se enquanto tutelava a pasta das Infraestruturas se chegou a dedicar a estes fenómenos, garantiu “A REN, a E-Redes e o Governo, pelo menos os governos a que eu pertenci, tinham todos estes temas bem presentes.”
E Galamba falou da Lei do Clima, do Governo do Partido Socialista e acrescentou, ressalvando que a lei existe e que se trata de “coisas que não se fazem de um dia para o outro”: “Sabíamos que iríamos entrar em período onde estes fenómenos seriam ainda mais presentes.”
Enterrar linhas, “empatia” e improviso
Quanto ao tema do enterramento de linhas na rede elétrica, referido ontem pela ministra do Ambiente e Energia, Galamba argumentou que essa é uma solução, mas pode não ser extensível a todo o território nacional, havendo outras ideias.
“A rede elétrica não se planeia com frases feitas. Não podemos passar de ‘Portugal tem uma percentagem inferior à média europeia de linhas enterradas’ e de repente parece que é ‘vamos enterrar as linhas todas’. Uma rede elétrica não se planeia assim e a resiliência pode ser atingida de diferentes maneiras”, adiantou, dizendo mesmo que o PDIRD-E já previa “um aumento dos quilómetros de linhas enterradas.” Mas para além desta solução, que pode não ser a melhor para linhas de alta tensão e muito alta tensão, de acordo com o que disse, pode também ser feito o reforço de estruturas.
Na perspetiva de Galamba, que “não é engenheiro”, e aqui trata-se de uma “engenharia muito complexa”, é preciso olhar para a rede elétrica, fazer testes com tempestades e fenómenos extremos e depois sim, perceber o que fazer em cada momento. “Serão, certamente, respostas diferentes. A ideia de que o que tem de ser feito é enterrar linhas? Aí não.”
Confessando-se muito crítico da ministra do Ambiente e da Energia, Maria da Graça Carvalho, Galama fez questão de sublinhar que a governante tem demonstrado empatia pedagogia, assim como feito um “excelente trabalho” – ao contrário de “outros ministros, que têm demonstrando total impreparação”. “Não têm desempenhado aquilo que se espera de um Governo numa situação desta gravidade. O mesmo não posso dizer da ministra, que tem estado francamente bem.”
Concluindo, reforçou: “Na rede elétrica, o planeamento existe. Portugal é muitas vezes acusado de falta de planeamento e de improviso. Se há área que não padece desse mal é o setor elétrico. Vai ter de se ajustar às novas circunstâncias.”



