
São como um oásis, mantidos pelo esforço de agricultores que enfrentam escassez de água e pedem mais investimento, segundo relataram à Lusa.
“Eu escolhi trabalhar na agricultura porque é aquilo de que gosto. Cultivamos para vender na cidade da Praia, mas a maior dificuldade é a falta de água”, disse à Lusa Ana Tavares, na zona de Portal, concelho de São Domingos.
Entre fileiras de cebola, tomate e abóbora, sob sol forte, trabalha a terra com a filha de sete meses às costas, num espaço onde tudo acontece em simultâneo: plantar, cozinhar e cuidar dos filhos.
Filha de agricultores, cresceu neste meio e acabou por seguir o mesmo caminho.
No terreno, estão também os dois filhos mais velhos, de 15 e 12 anos, que se preparam ali antes de irem para a escola.
Entre tarefas, a vida improvisa-se: panelas no chão, um fogão a lenha de três pedras e roupa organizada para o dia.
Papaia, manga e pinhão caídos das árvores servem de lanche entre o trabalho que tenta rentabilizar cada gotinha de água, cada vez mais rara à medida que os meses passam – as últimas chuvas caíram há meio-ano.
“Se não tivesse agricultura, não teria mais nada para fazer. Aqui, a única forma de viver é da agricultura”, afirmou, enquanto prepara os filhos para a escola, com um pote de creme na mão, e enquanto a bebé chora por já não querer ficar às costas.
A cor verde só se vê nas hortas, onde tanques e tubos permitem manter a produção agrícola num cenário de escassez hídrica, muitas vezes com recurso à compra de água transportada em camiões-cisterna.
São cerca das 09:00 (11:00 em Lisboa), mas o sol já aquece e os agricultores iniciam cedo a rega e a manutenção das plantações.
Batata-doce, cebola, tomate, cenoura e repolho dominam os terrenos – culturas escolhidas pela resistência e pela necessidade.
“A maior dificuldade aqui é a falta de água. Estão a fazer projetos de mobilização hídrica nas zonas mais baixas, mas ainda não chegou até nós”, disse José Rodrigues, de enxada na mão.
Para contornar a escassez, os produtores recorrem ao sistema de rega gota a gota.
Tubos serpenteiam pelos terrenos e, de cada pequeno orifício, saem gotinhas, numa cadência suficiente para manter as culturas.
“Cultivamos um pouco de tudo e utilizamos o sistema gota a gota para conseguir resultados, porque há terrenos que gastam muita água”, explicou Jeremias Miranda.
“Sem rega gota a gota, não conseguimos trabalhar”, reforçou José.
O abastecimento depende sobretudo de furos e poços, frequentemente insuficientes à medida que os meses secos avançam.
Em Cabo Verde, a chuva concentra-se entre agosto e novembro, deixando longos períodos de seca no resto do ano.
Quando a água não chega, os agricultores recorrem à compra através de camiões-cisterna vindos da capital, a cerca de 20 quilómetros: “Quando já não há água, temos de a comprar e vem da Praia, para continuarmos a produzir”, disse José.
A escassez de água tem também impacto na mão-de-obra e na permanência dos jovens na agricultura.
“Há problemas em ter pessoas para trabalhar, porque muitos jovens procuram sair e ainda não temos água suficiente para todos se envolverem na agricultura”, explicou Jeremias.
Apesar das dificuldades, os agricultores mantêm a esperança na expansão do sistema de abastecimento.
“A água ainda está na zona de Achada Baleia”, mais abaixo, “mas esperamos que chegue até aqui”, disse Jeremias.
Em março, o Governo inaugurou a segunda fase do projeto de mobilização de água para rega em Achada Baleia, no concelho de São Domingos, integrado no programa de dessalinização e reforço da disponibilidade hídrica para a agricultura.
“Se a água chegar, a agricultura aqui pode ter muito futuro”, concluiu José.



