21 março, 2026

A divisiva e instável postura da UE sobre política nuclear: Fique a par




Eis os principais pontos da questão:

Mudança de tom em Bruxelas

A presidente da Comissão Europeia assumiu, numa cimeira nuclear em Paris, que reduzir o peso da energia nuclear na Europa foi um “erro estratégico”, aproximando-se da posição tradicionalmente defendida pela França.

A mudança surge num contexto de forte pressão sobre os preços da energia, agravados pela guerra no Médio Oriente e pela volatilidade nos mercados de gás e petróleo.

A posição de Ursula von der Leyen ecoa declarações recentes do chanceler alemão, Friedrich Merz, que classificou como “grave erro estratégico” o abandono da energia nuclear na Alemanha após o desastre de Fukushima, Japão, em 2011.

Pequenos reatores modulares no centro da estratégia 

A Comissão Europeia pretende concentrar a sua estratégia em tecnologias nucleares inovadoras, nomeadamente pequenos reatores modulares (SMR), considerados mais rápidos de construir e potencialmente mais flexíveis do que os grandes reatores convencionais.

Bruxelas pretende que estas centrais estejam operacionais no início da década de 2030, numa corrida tecnológica em que a União Europeia procura recuperar atraso face aos Estados Unidos e à China.

Ao contrário da França, que defende financiamento europeu para grandes reactores como os EPR, a Comissão privilegia investimentos em novos modelos nucleares e em empresas emergentes.

Apoio financeiro e cooperação industrial

Ursula von der Leyen anunciou a criação de uma garantia financeira de 200 milhões de euros destinada a apoiar investimentos em tecnologias nucleares inovadoras.

O financiamento será proveniente do Sistema de Comércio de Licenças de Emissão da União Europeia (SCE), o mercado europeu de carbono que obriga as indústrias mais poluentes a pagar pelas emissões de CO2.

Entre os projectos de pequenos reatores em desenvolvimento na Europa encontram-se iniciativas da Fortum (Finlândia), da EDF (França), da startup italiana Newcleo, da empresa neerlandesa Thorizon e da Eagles, na Roménia.

A Comissão pretende também promover a cooperação entre startups europeias e definir padrões comuns para evitar a fragmentação do mercado nuclear.

Debate energético continua a dividir os Estados-membros

A energia nuclear permanece um dos temas mais sensíveis da política energética europeia, com posições divergentes entre os países da União.

A Alemanha abandonou definitivamente a energia nuclear em 2023, enquanto a Áustria mantém uma oposição histórica a esta tecnologia e a Espanha aposta sobretudo nas energias renováveis.

Dados do Eurostat indicam que, em 2024, as energias renováveis representaram 47,3% da produção de eletricidade na União Europeia, enquanto a energia nuclear representou 23,4%.

Especialistas em política climática alertam que, a curto prazo, a eletrificação da economia europeia dependerá sobretudo da expansão da energia eólica e solar.

Próximas decisões sobre energia na UE

O comissário europeu para o Mercado Interno e Indústria, Stéphane Séjourné, afirmou que a União Europeia (UE) está a “quebrar tabus”, ao integrar a energia nuclear na estratégia industrial e nos instrumentos de financiamento comunitários.

A questão deverá voltar ao centro do debate político nas próximas semanas, com reuniões de ministros da Energia e uma cimeira europeia dedicada ao problema dos elevados custos da energia, nos dias 19 e 20.

Vários líderes europeus, incluindo os primeiros-ministros da Alemanha, Itália e Bélgica, realizaram uma videoconferência para coordenar posições antes da reunião do Conselho Europeu.

Espera-se que a Comissão Europeia apresente propostas destinadas a reduzir os preços da energia, considerados um dos principais obstáculos à competitividade industrial dos 27.

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