
“A minha vida tem tido desafios bastante específicos, diferentes daqueles enfrentados por pessoas que não viveram o que eu vivi”, disse à Lusa o sobrevivente Magnus Håkonsen.
Magnus tinha 18 anos quando, a 22 de Julho de 2011, o extremista Anders Breivik matou a tiro e à bomba 77 pessoas, a grande maioria crianças e jovens, na ilha de Utøya e no centro de Oslo.
“[O ataque] estará sempre presente. Agora estou a passar um bom momento, no início não sabia como lidar com ele e tentei pô-lo para trás das costas, o que não funcionou”, contou Magnus, que hoje, aos 33 anos, dedica parte do seu tempo a uma organização de apoio a sobreviventes do 22 de Julho.
“Quinze anos depois, muitas das vítimas e dos que perderam os seus entes queridos estão a sofrer com problemas de saúde, psicológicos e económicos”, referiu a secretária-geral Støttegruppen 22. Juli, uma organização de apoio às vítimas dos ataques. Em 2021, por exemplo, um estudo da Universidade de Oslo revelava que quase metade dos sobreviventes sofria de insónias.
Para além de apoiar aqueles que, directa ou indirectamente, foram afectados pelo 22 de Julho, Gro Lindstad afirmou que o Støttegruppen usa a sua influência e conhecimento para combater o extremismo e apoiar as vítimas destas ideologias na Noruega e a nível internacional, inclusive em cooperação com as Nações Unidas e a União Europeia.
Quando aconteceu, o ataque foi uma força unificadora da sociedade norueguesa contra o extremismo de direita. “Houve uma grande união”, recordou Trude Schjelderup Iversen.
“A sociedade uniu-se, juntou-se nas ruas, foi quase como um abraço colectivo”, contou a curadora de arte, agora envolvida na criação de um novo memorial às vítimas, inaugurado esta semana no âmbito das comemorações dos 15 anos do 22 de Julho.
Um novo estudo revelou este ano que a adesão a ideais de extrema-direita, incluindo ideias de pureza racial e a legitimação da violência duplicou em relação a 2022.
Os resultados do estudo do Centro de Estudos sobre Extremismo (C-REX), em Oslo, feito em Junho deste ano, foram divulgados na imprensa norueguesa: de acordo com o jornal VG, 3,3% da população da Noruega, cerca de 150 mil pessoas, subscreve estas ideias.
Desde o ataque de Breivik, a Noruega assistiu a 23 outros episódios de violência de extrema-direita, muitos com motivações raciais e dois deles mortais, em 2019 e 2025, segundo dados do C-REX.
“Todos concordam que os ataques [de 2011] foram horríveis”, disse o director educativo do Centro 22 de Julho, Jarle Sundve. “[Há quem diga] que se trata de um acto terrorista horrível, mas que algumas das ideias na sua base são legítimas”, admitiu.
Depois de 2011, Utøya permaneceu no discurso político norueguês. Entre os sobreviventes do massacre no acampamento da juventude trabalhista, muitos dos que continuaram politicamente activos reportaram receber ameaças relacionadas com o ataque, segundo um artigo científico de 2023, no contexto de uma investigação liderada pelo Centro Norueguês para o Estudo da Violência e do Stress Traumático.
Os participantes reportam receber ameaças semelhantes a “devias ter morrido em Utøya”, uma frase que também o actual líder da juventude trabalhista norueguesa recentemente disse ter recebido. As ameaças a Gaute Skjervø terão sido tão recorrentes que começou a fazer-se acompanhar de um botão de pânico, segundo disse ao jornal VG.
A presença de Utøya no debate político é algo que o jovem Nico, de 25 anos, reconhece, mostrando-se ainda preocupado com a prevalência do extremismo de direita na política norueguesa. “Quando há eleições, vemos certas ideias de extrema-direita vir à superfície”, contou à Lusa num parque em Oslo.
“Lembro-me de ver [os ataques] na televisão”, disse Marta, de 31 anos, que recordou a união sentida na sociedade nessa altura. Hans Marius, de 25, sente-se, contudo, preocupado com a emergência de uma cultura de violência e o extremismo online, mas os dois relevaram o papel que a escola teve na sua compreensão dos ataques de 2011 e a importância das iniciativas que todos os anos procuram preservar a memória das vítimas.
Para além de um novo memorial, assinado pelo artista Matias Faldbakken, o 15º aniversário será ainda marcado pela abertura do novo Centro 22 de Julho, que pretende ser um local de divulgação de conhecimento sobre os atraques e preservação da memória das vítimas.
Esta semana, as comemorações contarão com a presença do actual primeiro-ministro da Noruega, Jonas Gahr Støre, do Partido Trabalhista, assim como de membros da família real da Noruega. Para além das comemorações na capital, a data, que corresponde ao ataque mais mortífero em solo norueguês desde a Segunda Guerra Mundial, será ainda marcada na ilha de Utøya.


