1 julho, 2026

Conflito em Myanmar fez mais de 100 mil mortos desde golpe de Estado



Há cinco anos, o exército pôs fim a uma década de experiência democrática neste país do Sudeste Asiático, derrubando o Governo eleito de Aung San Suu Kyi e detendo a vencedora do Prémio Nobel da Paz.

As manifestações contra o golpe foram então reprimidas pelas forças de segurança, mas os ativistas pró-democracia abandonaram as cidades para combater a junta militar ao lado de movimentos armados de minorias étnicas há muito hostis ao poder central.

De acordo com os dados mais recentes da ONG norte-americana Acled (Armed Conflict Location and Event Data), que regista os incidentes relatados pelos meios de comunicação social, os confrontos causaram um total de 100.114 mortos em todos os lados envolvidos no conflito.

Não existe um balanço oficial e as estimativas variam consideravelmente, mas os analistas consideram este o conflito mais mortífero atualmente em curso na Ásia.

O líder dos militares golpistas, general Min Aung Hlaing, assumiu recentemente a Presidência do país na sequência de um processo eleitoral que foi qualificado no estrangeiro como uma manobra para prolongar o regime militar sob uma aparência de poder civil.

Segundo a ONU, mais de 3,7 milhões de pessoas estão deslocadas no interior do país e mais de uma em cada cinco pessoas encontra-se em situação de insegurança alimentar.

A maior cidade birmanesa, Rangum, vive uma relativa normalidade, mas a violência pode manifestar-se sob a forma de assassinatos esporádicos. Outras regiões são bombardeadas diariamente por ataques aéreos levados a cabo por aviões militares fornecidos pela Rússia e pela China.

A ACLED identificou mais de 1.200 grupos armados distintos nesta guerra civil, classificando-a como “o conflito mais fragmentado do mundo”.

“O conflito espalhou-se por todo o país”, comentou Sun Mon Thant, analista da ACLED. “Estamos a assistir a mais massacres. O exército tem como alvo escolas, clínicas, prisões…”, continuou.

A dinâmica geográfica do conflito oscilou ao longo dos últimos cinco anos. Uma ofensiva conjunta de vários grupos rebeldes permitiu-lhes alcançar avanços espetaculares no final de 2023, aproximando-se de Mandalay, a segunda maior cidade do país.

Mas a situação voltou a inclinar-se a favor do exército no ano passado, segundo os analistas, depois de a China ter dado o apoio à liderança militar em Rangum e promovido a assinatura de tréguas com dois dos mais poderosos grupos armados étnicos.

O Estado-Maior birmanês instituiu, em fevereiro de 2024, o serviço militar obrigatório para reforçar as suas fileiras, recrutando à força cerca de 50 mil civis.

A guerra afetou indiretamente os países vizinhos, para onde fugiram muitos refugiados, acolhidos em campos na Tailândia e no Bangladesh.

Segundo observadores, grupos armados de todos os quadrantes financiam os esforços de guerra graças aos lucros do tráfico de drogas, como a heroína e a metanfetamina.

As zonas fronteiriças, com controlo reduzido, tornaram-se, além disso, um foco de centros de burlas online, que operam frequentemente a partir de complexos fortificados guardados por milícias.

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