
Segundo um despacho do juiz que tutela a investigação, citado pelos meios de comunicação social espanhóis, as suspeitas de fraude fiscal e contrabando estão relacionadas com joias que foram encontradas num cofre no escritório de Zapatero durante buscas policiais feitas em 19 de maio.
As joias, com uma origem “não justificada neste momento”, foram avaliadas em 1,3 milhões de euros, revelou o juiz, que acrescentou no mesmo documento que a posse de bens deste valor, sem rasto fiscal sobre a sua aquisição ou posse (em declarações patrimoniais ou de impostos), é “um indício objetivo e racional da possível existência de uma defraudação tributária relevante”.
O juiz acrescentou que pode também estar em causa um crime de contrabando, pela presença em Espanha de joias avaliadas em 1,3 milhões de euros “sem prova de pagamentos” de taxas comerciais ou “impostos especiais” associados à sua importação.
“Tais bens terão entrado no território aduaneiro da União Europeia iludindo os controlos e obrigações fiscais exigíveis”, escreveu o juiz no mesmo despacho.
Zapatero, que será ouvido pelo juiz que tem a instrução do caso em 17 e 18 de junho, em Madrid, disse, através de pessoas próximas, que as joias eram heranças familiares e presentes, sem dar mais detalhes.
O antigo primeiro-ministro e ex-líder do Partido Socialista Espanhol (PSOE) está a ser investigado “por delitos de tráfico de influências e outros conexos”, incluindo branqueamento de dinheiro, revelou a Audiência Nacional de Espanha, num processo que foi “aberto para investigar o resgate da companhia aérea Plus Ultra”, em 2021.
Segundo o sumário do processo judicial, Zapatero é suspeito de liderar “uma estrutura estável e hierarquizada de tráfico de influências” com o fim de obter “benefícios económicos” através de “influências em instâncias públicas em favor de terceiros, principalmente, a Plus Ultra”.
A investigação suspeita ainda da utilização de empresas e documentação simulada “para exercer influências ilícitas” e lavar dinheiro, nomeadamente, ocultar a origem e o destino de verbas, incluindo uma empresa de que são administradoras e sócias as filhas de Zapatero.
José Luis Rodríguez Zapatero, de 65 anos, garantiu inocência e prometeu total colaboração com a justiça.
A empresa Plus Ultra, considerada de pequena dimensão e com ligações à Venezuela, beneficiou em 2021 de um resgate financeiro de 53 milhões de euros, concedidos na modalidade de empréstimo pelo governo espanhol, liderado pelo socialista Pedro Sánchez, que na altura criou um fundo de dez mil milhões de euros para resgatar empresas consideradas estratégicas que estavam com dificuldades por causa da covid-19.
O Governo tem manifestado tranquilidade e “respeito pela justiça”, mas sem esquecer “o princípio fundamental da presunção de inocência”, na investigação a Zapatero e também em relação ao resgate da Plus Ultra, sublinhando que teve o aval da União Europeia e do Tribunal de Contas.
Zapatero foi um dos grandes apoiantes de Sánchez nas últimas eleições espanholas, em julho de 2023, e chegou a ser classificado pela imprensa como o “grande ativo eleitoral” atual do PSOE.
A investigação judicial a Zapatero soma-se a outras que envolvem outras pessoas próximas ou que foram próximas de Sánchez, como um antigo ministro, ex-dirigentes do PSOE ou o irmão e a mulher do primeiro-ministro, acusados ou investigados por corrupção ou tráfico de influências.
Nas últimas semanas, juntou-se ainda uma investigação judicial a uma antiga militante do PSOE, Leire Diez, com suspeitas de ter havido também dentro do partido uma espécie de célula que tentaria interferir nessas investigações policiais e do Ministério Público.
“Toda a colaboração com a justiça, todo o respeito pela presunção de inocência do presidente Zapatero e todo o meu apoio ao presidente Zapatero”, disse Sánchez, quando foi conhecido o caso do ex-primeiro-ministro.



