
As sondagens à saída das urnas atribuíam à filha do antigo chefe de Estado Alberto Fujimori (1990-2000) cerca de um ponto de vantagem sobre o adversário.
Os resultados oficiais pareciam, no entanto, dar-lhe uma margem mais confortável, com 52,6% dos votos contra 47,4% para Sanchez, após a contagem de 36% dos boletins de voto.
“Este resultado traduz a divisão do país, mas revela também que nenhuma força política é hegemónica”, disse à agência France-Press (AFP) o analista Paulo Vilca, do Instituto de Estudos Peruanos (IEP).
Quase 27 milhões de peruanos votaram ao longo de uma jornada sem incidentes de maior, ao contrário da primeira volta, marcada por falhas e acusações de fraude.
Nenhum dos dois candidatos obteve apoio expressivo no sufrágio de 12 de abril, que contou com um recorde de 35 concorrentes. Todos os candidatos junto recolheram menos de 30% dos votos.
Muitos eleitores afirmaram ter escolhido “o menos mau” dos dois, num escrutínio marcado por forte desconfiança em relação à classe política e pelo cansaço face ao aumento da criminalidade.
“Foi preciso escolher o menor dos males. A história repete-se. Estamos numa crise que dura há mais de uma década”, disse à AFP Renzo Masa, estudante de 23 anos.
Keiko Fujimori, de 51 anos, candidata-se pela quarta vez consecutiva, reivindicando o legado controverso do pai, apontado pelos apoiantes como responsável pela estabilização da economia e pela derrota das guerrilhas dos anos 1980 e 1990, mas condenado por corrupção e crimes contra a humanidade.
“Votei em Keiko porque representa estabilidade. Infelizmente, não lhe demos oportunidade de governar”, afirmou Luis Bernaola, técnico de eletrónica de 44 anos.
Roberto Sanchez, ex-ministro de 57 anos, concorre pela primeira vez, apoiado por forte base nas regiões andinas que se sentem abandonadas pelo poder central em Lima.
Um juiz remeteu-o recentemente à justiça por alegadas irregularidades financeiras no partido, sem impacto na segunda volta.
“Precisamos de mudança. O equilíbrio de poderes é importante. Keiko assusta-me mais do que Sanchez”, declarou à agência francesa Juan Salas, comerciante de 32 anos.
Seja qual for o vencedor, herdará um país mergulhado numa crise política persistente, com oito presidentes desde 2016.
A insegurança é outra grande preocupação dos eleitores, com cerca de 70% dos peruanos a esperar que o combate à criminalidade seja prioridade do próximo presidente, segundo uma sondagem recente.
Lima registou 23 homicídios por 100.000 habitantes em 2025, três vezes mais do que cinco anos antes.
A candidata de direita promete mobilizar o exército em apoio à polícia, desmantelar redes de extorsão e expulsar estrangeiros em situação irregular condenados por crimes.
Apresenta-se como a candidata da prosperidade e alerta para o perigo do “comunismo”. “Nós representamos o progresso, eles o retrocesso”, afirmou recentemente.
Roberto Sanchez defende uma abordagem distinta, com o combate à criminalidade a passar pelo restabelecimento da confiança nas instituições, reforço do sistema judicial e reforma da polícia.
Durante a campanha, Sanchez usou o chapéu camponês oferecido pelo ex-presidente detido Pedro Castillo, cujo legado político reivindica.
O antigo professor está detido desde a tentativa falhada de dissolver o Parlamento em 2022. Sanchez prometeu conceder-lhe indulto se vencer.
Inicialmente apoiado por movimentos ultranacionalistas, o candidato moderou o discurso ao longo da campanha, sublinhando o consenso, a estabilidade e o respeito pelas instituições.
Nenhum dos dois dispõe de maioria parlamentar. O futuro presidente terá de formar alianças para concluir o mandato, que começa a 28 de julho.



