29 abril, 2026

Soberania nacional, quando se trata de defesa, é crucial



Micael Johansson esteve em Cascais na terça-feira, a propósito da ASD Convention 2026, num encontro que reuniu os principais ‘players’ europeus do setor da Defesa, Segurança e Aeroespacial.

 

Questionado como se consegue construir uma verdadeira indústria europeia de defesa, o presidente da ASD – Aerospace and Defence Industries Association of Europe considera que tudo começa com a procura.

“Creio que tudo começa com a procura. Penso que, se os países começarem a unir-se, pelo menos como uma ‘coligação de vontades’ para comprar os mesmos produtos, isso resultará em maiores volumes”, refere.

Ou seja, “as empresas irão começar a estabelecer parcerias e, possivelmente, a criar ‘joint-ventures’, o que levará à consolidação. Julgo que é muito difícil tentar orquestrar isto politicamente de cima para baixo, no sentido de dizer: ‘Muito bem, vocês fabricam tanques, vocês fabricam aviões caças e vocês fabricam submarinos’, eu não acredito nisso”, prossegue o responsável, que também é presidente executivo (CEO) da Saab.

“É preciso um mercado competitivo para ter vantagem”, defende.

Portanto, “começar com a mesma procura e os mesmos requisitos, claro, é um fator importante para o funcionamento da indústria. Se tiver versões personalizadas em cada país, o mercado fragmenta-se”, aponta Micael Johansson.

Para o responsável, “a soberania nacional, quando se trata de defesa, é crucial”.

“Quer dizer, a coisa mais importante que um governo precisa de compreender é que precisa de defender o seu povo no seu país e precisa de ser capaz de controlar isso de certa forma”, prossegue.

Por isso, não se pode simplesmente ditar onde é que outro país deve comprar as coisas, sublinha, daí que “soberania nacional é importante”.

Mas, “além da soberania nacional, é claro, é preciso lidar com questões maiores que não podem ser resolvidas por um único país europeu”, refere.

“Precisamos de colaborações para preencher as lacunas que temos: sistemas de defesa aérea” como a capacidade do ‘Iron Dome’ (Cúpula de Ferro) — e a capacidade de ataque de precisão de longo alcance poderiam ser parte desse ‘drone wall’ [proposta de rede integrada de defesa aérea europeia] de que se fala, diz.

Estas “são questões em que temos de colaborar e penso que não é uma escolha entre uma coisa ou outra. Às vezes, partimos do princípio de que não podemos ter um poder de decisão federal na Comissão ou na UE — o que considero correto”.

A decisão “tem de ser dos países-membros em coligações de vontade, mas a UE pode facilitar através dos programas de incentivo que temos”, como o Fundo de Defesa Europeia (EDF, na sigla inglesa], entre outros mecanismos.

Questionado sobre como tornar a Europa mais independente na defesa, sem afetar a parceria com os EUA ou a capacidade de trabalhar em conjunto com a NATO, Micael Johansson aponta que é uma questão de interoperabilidade e de equilíbrio.

A interoperabilidade dentro da NATO “não se trata de todos terem de ter equipamentos dos EUA para ser interoperável”, enfatiza.

“Cada um tem que trazer elementos que funcionem juntos, que sejam interoperáveis. Não acho que isso seja um problema, de forma alguma”, prossegue.

Além disso, “temos uma situação em que acredito que a Administração dos EUA realmente quer que a Europa assuma uma responsabilidade maior pela sua própria segurança, defesa, resiliência e tudo mais”.

Tal “significa, é claro, que é preciso ter uma capacidade mais soberana na Europa, não significa que precise cortar ou desconectar dos Estados Unidos”.

O responsável defende que deveria existir “algum tipo de preferência europeia, garantindo que mudemos esse equilíbrio para ter algo como 70% na Europa e talvez 30% na ligação com os EUA”.

Aliás, é olhar para os EUA: “Eles Compram 98% da sua própria indústria. Então, por que não teríamos mais controlo soberano na Europa”, questiona. Isso pode exigir uma preferência europeia para sustentar essa direção.

Sobre a NATO, Micael Johansson considera uma aliança forte, em que todos os 32 países, “talvez com uma exceção”, se comprometeram com 3,5% do PIB até 2035.

“E eu só posso esperar que a aliança da NATO se mantenha unida com o mesmo objetivo de antes”, diz.

Sobre o funcionamento das cadeias de abastecimento, tanto o setor da defesa como o da aviação civil estão na mesma situação.

O grande ponto de obstrução (‘bottleneck’) é a cadeia de abastecimento

“Acredito que temos de trabalhar diligentemente para garantir que, de certa forma, regionalizamos as cadeias de abastecimento o máximo possível e que tenhamos mais cadeias de abastecimento resilientes”, aponta.

“Portanto, lidar com isso e garantir que não sejamos cortados quando se trata de matérias-primas, minerais de terras raras”, entre outros, “é a chave”.

A longo prazo, “penso que a Europa e o mundo ocidental têm de investir em ter um pouco mais de capacidade soberana nessas questões também (…), caso contrário seremos completamente dependentes da China, para começar, mas de alguns outros países também”, adverte.

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