19 fevereiro, 2026
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Mais de mil quenianos usados pela Rússia como “carne para canhão”



Vários meios de comunicação, incluindo a agência francesa AFP, mostraram recentemente como centenas de quenianos, frequentemente sem qualquer passado militar, acabaram a combater as tropas ucranianas, servindo de “carne para canhão”, como descreveram as autoridades do Quénia.

Uma vez chegados à Rússia, foram forçados a assinar um contrato com o exército russo para serem rapidamente transferidos para a frente de batalha na Ucrânia, onde muitos foram mortos ou feridos, de acordo com a AFP.

“Até à data, mais de 1.000 quenianos foram recrutados e partiram para combater na guerra russo-ucraniana”, declarou no parlamento queniano, na quarta-feira, o deputado Kimani Ichung’wah.

O deputado disse basear-se num relatório conjunto dos serviços de informações e da direção de investigações criminais do Quénia.

O número citado por Ichung’wah é muito superior aos 200 quenianos evocados até agora pelas autoridades de Nairobi.

Os recrutas abandonam o país com vistos de turismo para se juntarem ao exército russo via Istambul (Turquia) e Abu Dhabi (Emirados Árabes Unidos), precisou o deputado.

Alguns transitam agora pelo Uganda, República Democrática do Congo e África do Sul para evitar controlos, referiu.

De acordo com um balanço de fevereiro, 28 recrutas estavam desaparecidos, 35 em campos ou bases militares, 89 destacados na linha da frente e 39 hospitalizados.

Trinta quenianos foram repatriados.

As agências de recrutamento colaboram com funcionários corruptos do aeroporto da capital queniana, bem como dos serviços nacionais de emprego e funcionários das embaixadas da Rússia em Nairobi e do Quénia em Moscovo, denunciou o deputado.

Numa investigação publicada na semana passada, a AFP falou com quatro quenianos que regressaram da Rússia, três dos quais feridos em combate.

Um partiu para a Rússia acreditando que seria vendedor, dois esperavam ser agentes de segurança e o quarto atleta de alta competição.

A todos foram prometidos salários equivalentes a entre 920 e 2.400 euros mensais na Rússia, uma fortuna no Quénia, onde muitos trabalhadores ganham apenas cerca de 100 euros por mês (mais de 15.200 xelins quenianos).

O Uganda e a África do Sul figuram entre os outros países africanos visados por este método de recrutamento, numa altura em que a Rússia sofre pesadas baixas na Ucrânia.

O chefe da diplomacia queniana, Musalia Mudavadi, deverá deslocar-se a Moscovo em março.

O Governo do Quénia já condenou a utilização dos seus cidadãos como “carne para canhão”.

A Rússia invadiu a Ucrânia em 24 de fevereiro de 2022, desencadeando uma guerra que em quatro anos causou dezenas de milhares de vítimas civis e militares, bem como milhões de pessoas deslocadas.

A guerra também provocou a destruição de muitas infraestruturas da Ucrânia, que conta com o apoio do Ocidente no fornecimento de armamento para combater as tropas russas.

As duas partes têm estado envolvidas nos últimos meses num processo de negociações sob mediação dos Estados Unidos, com mais uma ronda realizada na terça e na quarta-feira na Suíça, mas sem um acordo de cessar-fogo.

As principais divergências prendem-se com questões territoriais, com Moscovo a exigir o controlo de várias regiões da Ucrânia e ainda da central nuclear de Zaporijia, a maior da Europa, o que é rejeitado por Kiev.

A Ucrânia exige também garantias de segurança do Ocidente, nomeadamente da NATO, a cuja adesão Moscovo se opõe.

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