18 fevereiro, 2026
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Como eram as festas de Daniel Vorcaro, que viraram alvo de pedido de investigação



(FOLHAPRESS) – O Ministério Público junto ao Tribunal de Contas da União apresentou representação recomendando a abertura de processo para identificar autoridades públicas federais que teriam participado de festas na casa de veraneio do então banqueiro Daniel Vorcaro, em Trancoso, na Bahia.

Segundo o documento, datado de 29 de janeiro deste ano, “esses eventos, denominados Cine Trancoso, teriam contado com a presença de altas autoridades dos Três Poderes da República, incluindo integrantes do Poder Executivo do governo anterior, membros do mercado financeiro, da política e do meio jurídico”.

O pedido menciona reportagem da revista digital Liberta sobre os encontros no litoral baiano. Matéria publicada pela Folha de S.Paulo, em setembro de 2025, também tratou de eventos realizados no imóvel. Em três aluguéis de temporada entre 2021 e 2022, Vorcaro se hospedou na casa, que pertencia à empresária Sandra Habib, mulher de Sérgio Habib, presidente da JAC Motors Brasil.

Posteriormente, o imóvel foi comprado por empresas ligadas ao banqueiro. A venda passou a integrar um processo judicial que descreve transtornos ocorridos quando Vorcaro ainda era locatário.

Em mensagens de WhatsApp reproduzidas no processo, a antiga proprietária demonstrou indignação com o que teria acontecido no local. Ao corretor responsável pela locação, Sandra relatou que seus funcionários ficaram chocados.

“O Vorcaro encheu a minha casa de putas. Ele, amigos e muitas putas! Desde antes de ontem, reclamações por causa do som acima do permitido. Ontem foi pior”, escreveu ela no dia 5 de outubro de 2022, véspera do aniversário do banqueiro.

Segundo a empresária, havia mais de 30 pessoas na residência, embora o contrato limitasse a 20. Ela afirmou ainda que Vorcaro teria contratado um grupo de pagode, com música alta, o que chamou a atenção de vizinhos, da polícia local e de agentes ambientais.

De acordo com apuração da Folha com 13 executivos, empresários e integrantes de órgãos públicos, os eventos não teriam se restringido a Trancoso. Festas de diferentes portes teriam sido promovidas por Vorcaro em outras localidades, no Brasil e no exterior. Em São Paulo, uma área de hotel ficou conhecida por sediar encontros mais frequentes.

Os episódios passaram a circular nos meios político e financeiro e ganharam repercussão à medida que avançam as investigações sobre o caso Master.

Procurada, a assessoria do banqueiro afirmou, em nota, que a defesa “repudia as informações e alegações apresentadas, que se baseiam em fonte não fidedigna e em relatos distorcidos, utilizados para construir narrativa difamatória e sensacionalista contra o empresário”.

Pessoas próximas a Vorcaro afirmam que ele se empenha em criar redes de relacionamento no meio político e empresarial e considera importante impressionar convidados para fortalecer vínculos.

Um exemplo citado é a reforma realizada para instalar um bar em estilo inglês na área de escritórios da Titan, holding de seu grupo, no edifício Birmann 32, na avenida Faria Lima, conhecido como “prédio da baleia” por causa da escultura instalada no local.

O banqueiro também ganhou visibilidade por investir no camarote VIP Café de la Musique Alma Rio, na Sapucaí, e por levar convidados para acompanhar a Fórmula 1 em São Paulo.

Os eventos descritos por interlocutores como suntuosos teriam sido reservados a grupos restritos de autoridades. Relatos apontam a presença de políticos de diferentes partidos, além de executivos de instituições públicas, como bancos e fundos de previdência.

Entre pessoas que comentam o assunto, há avaliação de que o receio em relação à eventual divulgação de imagens dessas festas, embora não ilegais, reforçaria a influência de Vorcaro sobre autoridades.

Há relatos de que não era permitido o uso de celulares nos encontros. A denominação Cine Trancoso alimenta a percepção de que registros teriam sido feitos pelo anfitrião. Rumores recentes indicam que a Polícia Federal teria acessado imagens no celular do banqueiro e avaliado como tratá-las, já que festas consensuais entre adultos não configuram crime. A PF não se manifestou.

Testemunhos mencionam que convidados eram recepcionados por mulheres descritas como modelos. Circulam histórias de que algumas delas teriam chegado de jatinho, vindas da Europa, embora as descrições não sejam precisas.

Segundo essa narrativa, muitas não falariam português, o que teria sido interpretado como estratégia para evitar que compreendessem o teor das conversas.

Os eventos incluiriam shows e serviço considerado de alto padrão, com alimentos e bebidas de luxo. O cardápio teria petiscos com caviar e vinhos como Petrus, La Tâche e Armand Rousseau, cujas garrafas podem custar de R$ 5 mil a R$ 50 mil, dependendo da safra.

O uísque Macallan também seria presença frequente. Uma garrafa da versão de 60 anos já foi leiloada por mais de US$ 2 milhões. No Brasil, versões podem variar de cerca de R$ 800 a quase R$ 90 mil.

Entre os eventos citados está uma festa durante a Semana do Brasil em Nova York, tradicional encontro de empresários e políticos. A celebração teria ocorrido como um “after” e repercutido nos dias seguintes.

Outro episódio mencionado ocorreu paralelamente ao Fórum Jurídico de Lisboa, conhecido como Gilmarpalooza. Segundo relatos, o evento promovido pelo banqueiro teria sido assunto entre participantes no dia seguinte.

Pessoas ligadas ao Master afirmam que algumas mulheres que frequentavam as festas teriam se aproximado de Vorcaro, recebido mesadas e se hospedado em hotéis de luxo em São Paulo, além de convidar amigas para eventos.

Reportagens também apontaram transações envolvendo empresa ligada ao banqueiro e uma jovem autodeclarada “sugar baby”, Karolina Trainotti, que recebeu um apartamento avaliado em quase R$ 4,4 milhões, doado pela Super Empreendimentos em 2024.

O MBL organizou protestos em frente ao Banco Master, na região da Faria Lima, e mencionou nas redes sociais a fama de festeiro de Vorcaro.

Em um dos atos, duas atrizes vestidas com sutiã e minissaia encenaram personagens ao lado de um homem com máscara do banqueiro. Antes de outro protesto, circulou vídeo produzido por inteligência artificial com marchinha de Carnaval fazendo críticas ao caso.

Para Renato Battista, coordenador nacional do MBL, a investigação pode trazer novas revelações. “Nós sempre falamos que o conteúdo do celular de Vorcaro seria explosivo. Hoje ficou comprovada a relação financeira entre ele e o ministro Dias Toffoli, mas não para por aí. Todo mundo sabe que Vorcaro realizava diversas festas com prostitutas e que envolvia autoridades de todos os poderes no meio disso. Isso pode vir à tona a qualquer momento”, afirmou.

Em nota, a defesa do banqueiro declarou que “as afirmações divulgadas não correspondem à realidade dos fatos e reproduzem versões descontextualizadas, já anteriormente apontadas à imprensa como parte de tentativa de extorsão e de constrangimento público”.

“A divulgação de conteúdos carregados de juízo moral, dissociados de qualquer relevância jurídica, contribui apenas para a criação de ilações e para a indevida invasão da esfera privada, reforçando um ambiente de pré-julgamento incompatível com o devido processo legal, com o porte deste veículo de imprensa e com os jornalistas envolvidos. A defesa, que não teve acesso a nenhum documento até agora, entende que esse tipo de abordagem integra um movimento mais amplo de difamação, voltado à tentativa de influenciar a percepção pública antes da conclusão das apurações”, conclui a nota.
 

Os diálogos obtidos pela Polícia Federal por meio do celular de Vorcaro indicam que o banqueiro determinou repasses que totalizaram R$ 35 milhões ao resort, segundo informações publicadas pelo jornal O Estado de S. Paulo.

Folhapress | 10:25 – 15/02/2026

 



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