
O eurodeputado João Cotrim Figueiredo advertiu, este domingo, que a gestão do rescaldo das intempéries que assolaram o país determinará o futuro da governação de Luís Montenegro, na medida em que o Executivo “vai ter de fazer escolhas, algumas delas difíceis, e vai deixar de ter dinheiro para satisfazer corporações”. O ex-candidato presidencial apontou, contudo, que “não há, como houve no tempo da pandemia, a capacidade de gerar uma mobilização da compreensão das pessoas durante um tempo tão vasto”.
“O Governo vai ter de fazer escolhas, algumas delas difíceis, e vai deixar de ter dinheiro para satisfazer corporações. Cada negociação orçamental vai passar a ser bastante mais difícil e não há, como houve no tempo da pandemia, a capacidade de gerar uma mobilização da compreensão das pessoas durante um tempo tão vasto. Agora, percebemos que estamos em crise, em situação de emergência; as pessoas podem perceber alguns sacrifícios. Daqui por seis meses ou 12 receio bem que já não seja assim. As pessoas vão perguntar como é que [voltam] ao nível de vida que [tinham] no final de 2025. […] Aqui há uma quebra efetiva da qualidade de vida e das condições de vida das pessoas”, equacionou, na estreia do seu espaço de comentário na SIC Notícias.
O antigo líder da Iniciativa Liberal (IL) salientou também que a reconstrução das várias zonas afetadas pelas tempestades custará “certamente mais do que os quatro mil milhões de euros que o ministro da Economia mencionou“, arriscando-se a estimar “que vá além do dobro disso”. Nessa linha, Cotrim Figueiredo especificou que “estamos a falar de impactos de 3 a 4% do PIB para podermos estar aqui a ter de resolver nos próximos anos”.
“É uma tarefa hercúlea e que exige resposta a duas perguntas imediatas: Como é que vamos fazer isto do ponto de vista estrutural? Como é que vamos pagar isto do ponto de vista económico? Não sei o que é que vai na cabeça do senhor primeiro-ministro”, lançou.
O liberal alertou haver uma “ideia um bocadinho mirífica de que os fundos europeus servem para tudo”, tendo recordado, a título de exemplo, que não houve nenhuma intervenção do Fundo de Solidariedade da União Europeia (FSUE) “que cobrisse mais de 5 a 10% do custo real das tragédias”.
MAI demitiu-se, Marcelo aceitou e reações não tardaram: “Única saída”
A ministra da Administração Interna, Maria Lúcia Amaral, demitiu-se do cargo na noite de terça-feira, tendo a informação sido partilhada através da Presidência da República, que deu conta de que Marcelo havia aceitado o pedido. Mas depois da onda de críticas, quais foram as reações partidárias à saída da ministra?
Maria Gouveia | 08:30 – 11/02/2026
“Por muito que o primeiro-ministro venha dizer que ainda podemos reafetar verbas do Banco de Fomento, do Fundo Ambiental ou até das verbas que já estavam previstas para a Defesa […], eu somo todas estas possibilidades e continua a ser absolutamente essencial usar o Orçamento do Estado”, defendeu.
Na ótica do eurodeputado, “o normal seria o Governo decidir ter uma estrutura de missão autónoma, para poder trabalhar com vários ministérios, e essa pessoa seria a pessoa realmente importante”. Ainda assim, e confrontado com a demissão de Maria Lúcia Amaral, Cotrim Figueiredo indicou que o novo tutelar da pasta “deve ser alguém com uma grande capacidade de execução, que alie a uma capacidade de comunicação que, infelizmente, a ministra da Administração Interna cessante não teve”.
“Acho que aquilo que está em causa com a reconstrução que Portugal precisa em muito do seu território vai bem além do ministério e vai bem além daquilo que são as estruturas orgânicas normais do Governo. Vai ter de haver algo de especial e esse algo de especial, de missão, deve conseguir abarcar várias áreas que não só da Administração Interna, obras públicas, Finanças, até da Educação e da Saúde, que também foram afetadas, e das comunicações”, disse.
O político sublinhou ainda que, ao contrário do PRR, esta recuperação “não vai ter datas, métricas e relatórios a apresentar a Bruxelas para vir o dinheiro”, razão pela qual “tem ser o próprio Governo a impor a si próprio um acompanhamento muito estrito daquilo que está e não está a ser feito, sob pena de estarmos a desperdiçar fundos públicos”.
“Nenhum dos dois concorrentes da segunda volta pode cantar vitória”
Apesar de ter exaltado a “grande vitória de António José Seguro, com uma votação inequívoca, com expressão em número de votos recorde“, o ex-candidato presidencial fez notar que “nenhum dos dois concorrentes da segunda volta pode cantar vitória”.
“António José Seguro [não] foi esmagador como poderia e deveria ter sido, e dependeu muito dos votos daqueles que nunca foram [seus eleitores]”, disse.
Cotrim Figueiredo justificou que o socialista “teve um recorde de votos perante um adversário que era, claramente, de uma área política que devia marcar muita diferença”, mas “teve apenas o dobro dos votos”.
“Recordo que, nas eleições em França, quando houve um primeiro confronto entre a extrema-direita radical e o resto do sistema, digamos assim, Jacques Chirac conseguiu ter mais de 80% dos votos. Era este tipo de mobilização que esperava”, clarificou.
O liberal desconsiderou também as afirmações de André Ventura, que se autoproclamou líder da Direita, tendo em conta que não conseguiu “sequer ter perto de metade dos votos de aquele que era o espaço da Direita definido pelas eleições legislativas anteriores”. Além disso, “não teve mais votos do que a AD nas eleições legislativas e não conseguiu metade dos votos do espaço da Direita”.
Para Cotrim Figueiredo, o sufrágio confirmou que, atualmente, existem “três grandes blocos” políticos em Portugal: “Temos um espaço à Esquerda, que está preso ao passado e não gosta muito de mudanças. Temos um espaço à Direita radical, que gosta muito de mudanças, mas é para ir para o passado. […] E [temos] aquilo que devia ser o centro reformista sem uma liderança clara e sem uma vontade de dizer aos portugueses que gostariam de ver o país andar para a frente aquilo que é preciso fazer. É nesse espaço que é preciso fazer trabalho político para o rearrumar.”
Uma das queixas de assédio na IL foi apresentada durante a presidência de Cotrim Figueiredo
A campanha eleitoral de Cotrim Figueiredo ficou marcada por uma denúncia de assédio sexual, divulgada na rede social Instagram por uma antiga assessora da IL, que deu conta de que o “conteúdo [era] de natureza privada, originalmente partilhado em contexto restrito e não público”. Inês Bichão assegurou ainda ter apresentado queixa contra o então candidato a Belém em sede interna, em 2023, declarações que foram negadas pelo liberal e pelo partido.
Cotrim Figueiredo apresentou, inclusive, uma queixa-crime por difamação, sobre a qual disse que, “provavelmente ainda na semana que agora entra, [prestará] depoimento”.
“Aquilo que me ajudaria muito era que não espalhassem mentiras sobre mim e, infelizmente, já aconteceu. Agora, só me resta defender-me”, acrescentou.
Depois de ter negado a existência de qualquer denúncia, a IL admitiu ter recebido duas queixas desde a fundação do partido, em 2017, mas frisou que “nunca houve qualquer insinuação, relato, queixa ou denúncia, de qualquer natureza, em qualquer momento” que visasse o eurodeputado.
Questionado sobre o assunto, Cotrim Figueiredo esclareceu que “uma delas” foi apresentada durante a sua presidência. No entanto, não concedeu mais detalhes.



