
Henrique Gouveia e Melo considerou que a demissão da ministra da Administração Interna, na noite desta terça-feira, foi uma boa decisão e que Maria Lúcia Amaral “fez bem, porque protege o Governo”. “Dá hipótese ao Governo de se reformular numa área que é essencial, principalmente fruto dos acontecimentos mais recentes”, começou por dizer, em entrevista na SIC Notícias.
Já num artigo de opinião publicado na manhã de hoje no jornal Público, intitulado “Estado do improviso”, sobre os efeitos do mau tempo no território nacional, o antigo candidato à Presidência da República considerava que o Governo tinha falhado na organização da resposta às populações afetadas pelo mau tempo e realçava que a ministra da Administração Interna deveria pedir a exoneração. Sobre se esse texto poderia ter surtido uma situação de causa efeito, Gouveia e Melo disse acreditar que não: “Eu não falei e a ministra saiu. Não é uma relação direta que se possa fazer. Julgo que a ministra já devia estar a ponderar, face à própria situação em que estava envolvida, se tinha ou não condições para continuar.”
Questionado sobre se achava que viria aí convite para assumir a pasta da Administração Interna, o almirante respondeu que “não faz sentido”. “Como português estarei permanentemente disponível para ajudar no que for necessário. Mas acho que não faz sentido em termos políticos”, referiu.
“Estou sempre disponível para ajudar a minha população, o meu povo, foi esse o meu compromisso a vida toda. Foi com esse mesmo compromisso que concorri à Presidência da República. Agora, não me parece que faça sentido político o Governo convidar um ex-candidato à Presidência para o cargo”, reforçou.
Inquirido sobre se o Governo o vê como sendo mais da ala do Partido Socialista, o almirante afastou a ideia. “Sou uma pessoa do centro e o centro engloba uma parte do PS e também engloba uma parte do PSD, portanto não é nesse sentido. A própria dinâmica política fará com que o próprio Luís Montenegro vá selecionar um ministro da Administração Interna diferente e só ele é que poderá fazer essa avaliação”, explicou, não querendo fazer “adivinhações, nem propostas”.
Eleições Presidenciais
Sobre o futuro, Gouveia e Melo rejeitou tornar-se um “Presidente sombra”: “O que vou ser é um cidadão com voz ativa, enquanto os portugueses me quiserem ouvir. Dizer o que penso em determinado momento, ao fazer isso verbalizo o que a população pensa também.”
“O meu objetivo é melhorar a governança, que tem de ser confrontada com ideias, com hipóteses – isso é que é verdadeiramente a democracia”, disse o antigo candidato.
Rejeitou ainda criar um movimento cívico-partidário como fez João Cotrim de Figueiredo, porque assume que perdeu. “Eu perdi, eu assumo verdadeiramente a derrota. Fiz uma proposta alternativa ao povo português, que não aceitou essa proposta. Tenho de assumir isso de uma forma verdadeiramente democrática”, elaborou.
“Creio que o novo Presidente da República fará um bom papel. É uma pessoa equilibrada, é uma pessoa sensata, o povo gosta desse tipo de perfil e estou convencido de que não fará só uma Presidência, a não ser que não queira”, elogiou o almirante.
Papel do Governo perante o mau tempo
Para Gouveia e Melo, “o que este país precisa mesmo é que aconteçam coisas”. “Quando as coisas não acontecem, temos um problema de credibilidade do sistema político. O mais grave, além das vidas perdidas e dos danos, é o descrédito do sistema político, se não responder bem aos problemas que as tempestades criaram. Temos de começar a entregar coisas à população, para que percebam que há um regime que cuida da população em tempos de crise”, analisou.
Recorde-se que 15 pessoas morreram em Portugal desde 28 de janeiro, na sequência da passagem das depressões Kristin, Leonardo e Marta, que provocaram também muitas centenas de feridos e desalojados.
A destruição total ou parcial de casas, empresas e equipamentos, a queda de árvores e de estruturas, o fecho de estradas, escolas e serviços de transporte, e o corte de energia, água e comunicações, inundações e cheias são as principais consequências materiais do temporal.
As regiões Centro, Lisboa e Vale do Tejo e Alentejo são as mais afetadas.
O Governo prolongou a situação de calamidade até dia 15 para 68 concelhos e anunciou medidas de apoio até 2,5 mil milhões de euros.



