3 fevereiro, 2026
3 fevereiro, 2026

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"Seguro vive em altura delicada. Em 86, Esquerda era fixe e hoje é diabo"



Portugal vai no próximo domingo, 8 de fevereiro, a votos para a segunda volta das eleições presidenciais, algo que não acontecia há 40 anos, depois do duelo que moldou a democracia moderna.

 

Em 1986, Mário Soares e Diogo Freitas do Amaral disputaram uma eleição de cortar a respiração. Desta vez, prevê-se que o sufrágio seja um pouco diferente, a começar, desde logo pelo estilo, personalidade e ideologia dos candidatos mas também pelo facto de dificilmente trazer uma surpresa, como Mário Soares protagonizou em 86.

Apesar disso – assim como das quatro décadas que se passaram e da evolução do mundo – há pontos em que 1986 e 2026 se tocam.

João Reis Alves, autor de “A Segunda Volta – 1986: As eleições que mudaram o país”, mergulhou nos arquivos, nos recortes de jornal e nos relatos na primeira pessoa para explicar como o merchandising, os debates acesos e a estratégia de resiliência dessa altura continuam a ser o manual de sobrevivência dos políticos atuais.

Em entrevista ao Notícias ao Minuto, o autor analisou as semelhanças (e as profundas diferenças) entre o Portugal de Soares e Freitas do Amaral e o Portugal de António José Seguro e André Ventura, falou do “divórcio entre os políticos e os portugueses”, do “cansaço” da ida às urnas e do facto de as “mentiras chegarem muito mais longe hoje do que em 1986”.

Lançou recentemente o livro “A Segunda Volta – 1986: As eleições que mudaram o país”. Como começou o interesse pelas eleições que puseram frente a frente Mário Soares e Freitas do Amaral?

Começou no início do ano passado. Já se ia discutindo o que poderia acontecer nas eleições presidenciais de 2026 e pairava a possibilidade de, quiçá, haver segunda volta. No meio dessas discussões, fui investigar as presidenciais de 1986 e tive a ideia: porque não contar tudo isto em livro?. Comecei o processo de pesquisa, recolha de informação e meter ideias no papel. Menos de um ano depois, saiu todo este relato sobre o duelo Soares-Freitas do Amaral.

Foi da segunda volta de 1986 que saiu aquilo que conhecemos hoje como campanha eleitoral. Os debates na televisão, o merchandising sem fim dos candidatos – desde os chapéus de palha ao clássico isqueiro – as voltas ao país para arruadas e contacto com a população

“A Segunda Volta” conta com vários recortes de jornais da época, relatos na primeira pessoa, momentos que ficaram eternizados como a mediática paulada a Mário Soares, na Marinha Grande, o famoso sobretudo verde de Freitas do Amaral, os acesos debates na televisão entre os dois candidatos e tiradas que ficaram para a História. O que mais o surpreendeu durante a sua pesquisa para escrever este livro?

Há vários marcos que saem de um momento vivido tão intensamente pelos intervenientes. Mas deu-me um gozo especial entender que foi daqui, da segunda volta de 1986, que saiu aquilo que conhecemos hoje como campanha eleitoral. Os debates na televisão, o merchandising sem fim dos candidatos – desde os chapéus de palha ao clássico isqueiro – as voltas ao país para arruadas e contacto com a população. O exemplo de como deve ser uma campanha aconteceu há 40 anos e, desde então, é seguido à risca por qualquer máquina partidária ou eleitoral. Esse dado foi surpreendente e demonstrou como Portugal estava a mudar, a modernizar-se, em meados dos anos 80.

N’A Segunda Volta” descreve o sufrágio de 1986 como as eleições que “mudaram Portugal”. 40 anos depois, voltamos a ter uma segunda volta. Que semelhanças sente que existem entre esse ano e agora?

Tendo em conta os candidatos, não são muitas. Se fosse Cotrim contra Seguro, por exemplo, provavelmente haveria mais semelhanças. Seriam dois perfis capazes de agregar a maioria do eleitorado, dada a forma de ser e a postura pública que têm. Sendo Seguro contra Ventura, a história muda. Do volátil líder do Chega não se percebe sequer se tem interesse em ser Presidente da República. Por isso, não se pode compará-lo aos intervenientes de 1986. Quanto a António José Seguro, poderá estar mais interessado, até pelo que apontam as sondagens, a repetir não 86, mas as presidenciais de 1991, onde Soares dizimou Basílio Horta, com 70% dos votos. Mesmo olhando para os 11 candidatos da primeira volta, é difícil fazer comparações. É preciso recordar que, nos anos 80, tínhamos os melhores dos melhores ao mesmo tempo na vida ativa, desde Ramalho Eanes a Mário Soares, de Cavaco Silva a Freitas do Amaral.

Acredito que uma vitória de Seguro não vai surpreender ninguém, nem André Ventura. A grande questão será o tamanho desse triunfo. Se for renhido, pode deixar o futuro Presidente da República numa posição complicada

Acha que em 2026 também vamos ter um renhido ‘sprint final’?

Penso que não. As eleições só se decidem nas urnas, mas acredito que uma vitória de Seguro não vai surpreender ninguém, nem André Ventura. A grande questão será o tamanho desse triunfo. Se for renhido, pode deixar o futuro Presidente da República numa posição complicada. Se for de goleada, como se diz no futebol, o futuro chefe de Estado ganha muito mais credibilidade.

Em 1986, a segunda volta serviu para clarificar dois projetos de sociedade muito distintos. Acha que o facto de Portugal ter ido novamente a uma segunda volta para escolher o Chefe de Estado é um sinal de que a democracia portuguesa voltou a uma polarização que julgávamos ultrapassada?

O caso atual é diferente. Não há propriamente uma polarização. Há sim uma ideia anti-sistema – signifique isso o que significar – e contra as instituições atuais. Uma ideia de que tudo o que foi feito nos últimos 50 anos foi mal feito, só serviu para beneficiar alguns e que o país está pior que nunca. Isto não é bem polarização, é mais a consequência de um divórcio entre os políticos tradicionais, especialmente os partidos, com uma parte assinalável dos portugueses. Daqui pode sair um sinal de confiança nos partidos que formaram a democracia, ou um sinal de ainda maior alerta para todos.

Mário Soares partiu de uma posição desvantajosa na primeira volta para vencer a segunda. Ao olhar para os resultados atuais, acredita que António José Seguro pode beber da estratégia de resiliência de Soares para travar o crescimento de André Ventura? Ou podemos vir a ser surpreendidos com uma reviravolta dos resultados a 8 de fevereiro?

São pessoas diferentes. Mário Soares, apesar de toda a má fama com que ficou no governo do Bloco Central, marcado pela austeridade, continuava a ser Mário Soares, uma figura respeitada e com trabalho reconhecido por todos. Seguro não é Soares, tem um estilo diferente. E tem uma vantagem que Freitas do Amaral não tinha: pode conquistar o eleitorado mais à direita. Enquanto Freitas foi mobilizador, mas acabou por perder porque Mário Soares chegava a um pouco mais de eleitorado, desta vez temos um candidato com uma taxa de rejeição alta e que já tem dificuldades suficientes para conquistar a Direita, quanto mais a Esquerda. 1986 pode ser uma inspiração por aquilo que representou, mas Seguro parte numa posição muito mais confortável do que Soares. Quanto a André Ventura, parece ter a sua ala conquistada, mas tem dificuldade em ir mais além. Não espero surpresas a 8 de fevereiro.

O que aprendemos com as eleições presidenciais de 86, que foram, tal como agora, uma das mais disputadas do nosso país? E o que devíamos ter aprendido e não aprendemos?

Esse ano ditou o início de uma situação política que se manteve durante quase 30 anos. O poder bipartido entre dois grandes blocos moderados – de um lado o PS, do outro o PSD – criou-se nessa altura. Durante três décadas os portugueses e a política viveram uma época de estabilidade, onde quaisquer extremismos eram incapazes de crescer minimamente, mesmo que tenha havido algumas dezenas de deputados do lado do PCP e Bloco de Esquerda. Esse bipartidarismo pode ter tido influência para alguns vícios, o que é natural, mas trouxe uma estabilidade imensa, só quebrada com a geringonça e, alguns anos mais tarde, com uma constante dissolução do Parlamento devido a Orçamentos do Estado chumbados. Perdeu-se essa estabilidade e, agora, há que trabalhar muito para recuperá-la. O próximo Presidente da República terá uma grande influência nisso.

Freitas do Amaral ficou às portas da vitória na primeira volta, tal como aconteceu agora com este cenário dividido. No seu livro, analisa o que falhou na estratégia dele. Que lições do passado poderiam ser aplicadas pelos candidatos do presente?

Apesar de haver erros que podem ser apontados à posteiri, Freitas do Amaral pode ter perdido simplesmente pelo dramático jogo dos números. A Esquerda tinha mais eleitores que a Direita. Ou seja, podemos também lançar a teoria que pouco ou nada havia a fazer para evitar tal derrota. Porém, uma das soluções que Freitas podia ter tomado, como não ir ao segundo debate, podia ter consequências piores, deixando Soares surfar a onda antifascista que marcou a campanha da segunda volta. É difícil apontar lições para os candidatos atuais, ainda para mais tendo um perfil tão diferente.

Numa era de redes sociais e desinformação, como é que o impacto físico e emocional da campanha de 86 se compara com a agressividade política e as fake news que vemos hoje em dia?

As presidenciais de 1986 trouxeram algo pouco visto até então. As notícias na imprensa tinham influência nas eleições. O caso do Primeiro de Janeiro, um jornal do Porto que era propriedade de Freitas do Amaral, é um bom exemplo disso. A história apontava que Freitas tinha deixado a publicação endividada e que os trabalhadores não recebiam o que deviam. A notícia foi muito puxada pelo O Diário, ligado ao PCP e, sendo lançada mesmo no último dia de campanha, teve um efeito negativo na campanha P’rá Frente Portugal. Hoje temos algo pior, a informação corre com maior rapidez – o que é bom – mas ainda permite que se espalhem boatos, mentiras e manipulações com relativa facilidade. É algo que vai além da política, ainda para mais com a Inteligência Artificial tão na moda. O impacto será semelhante, mas uma mentira chega muito mais longe hoje do que em 1986.

Seguro vive numa altura mais delicada para se ser socialista. Em 1986, a Esquerda era fixe e hoje parece o diabo para alguns

Acha que vamos ter a mesma mobilização na segunda volta que tivemos na primeira (e em 86). Ou teme que esta seja mais marcada pelo cansaço do que pela mobilização cívica?

Há um problema. Apesar de ser histórico voltar a haver uma segunda volta e ter dois candidatos tão diferentes, também é verdade que se trata da décima (mais ou menos) eleição em cinco anos. Há um cansaço da ida às urnas e da instabilidade. Se na primeira volta, com tantos candidatos diferentes, a participação foi o que foi, dificilmente será muito maior na segunda volta. Penso que, até alguma coisa mudar de substancial, não passaremos destas taxas de abstenção.

Tendo como base a sua investigação para este livro, como é que a união da Esquerda em torno de Soares em 86 se compara com o desafio que Seguro enfrentou e enfrenta agora para reunir o voto útil contra Ventura? Quem acha que teve mais dificuldade em reunir apoio?

Seguro vive numa altura mais delicada para se ser socialista. Em 1986, a Esquerda era fixe e hoje parece o diabo para alguns. O PS vem de um resultado trágico nas legislativas e, apesar de ter recuperado nas autárquicas, acaba sempre por afetar um candidato que cresceu com o partido, mesmo que se tenha afastado nos últimos 10 anos.

Por outro lado, Seguro tem um perfil sério, uma personalidade que os detratores chamarão de enfadonha, mas que acaba por ser serena para o eleitorado. Tendo em conta ainda a forma como o escorraçaram da liderança do PS e o que aconteceu depois disso, é uma pessoa tida em boa conta por parte da Direita. Já André Ventura tem um discurso forte e construiu uma onda de apoio considerável, mas o discurso do contra, de anti, não é muito agregador, para não falar dos anticorpos que muita gente tem ao Chega. Se houvesse um espírito antissocialista entranhado no eleitorado, Ventura até podia sonhar, mas como são as coisas, parece-me muito difícil que consiga convencer muito mais do que os seus eleitores habituais.

Após a primeira volta das eleições, André Ventura reivindicou-se como líder da Direita. Em 86, Freitas do Amaral representava uma Direita institucional e fundadora do regime. Como é que a “Segunda Volta” nos pode ajudar a entender a evolução – ou rutura – da Direita em Portugal?

Não é por André Ventura proclamar o que seja que isso passa a ser verdade. Aliás, estas presidenciais podem tornar-se num problema muito grande para ele. Repare: ele assume-se como o líder da Direita, mas se tiver um resultado muito inferior aos 3,9 milhões de votos que a direita teve nas últimas legislativas, só vai mostrar que não consegue juntar sequer quem vota do seu lado político. Fora outro facto, é que Freitas era amigo de pessoas à esquerda, como o próprio Mário Soares. Era capaz de ter uma boa relação com quem não acreditava como ele. André Ventura não tem essa empatia e critica quem está do outro lado da barricada. Com um perfil assim, é difícil ser-se agregador de quem não for da sua equipa, digamos assim.

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